Uma receita transmitida entre gerações, uma feira livre, um conhecimento tradicional, um manguezal preservado, uma celebração religiosa ou uma peça de artesanato podem parecer distantes das grandes discussões sobre economia. No turismo, não estão. Quando esses ativos são integrados a uma experiência capaz de gerar receita, eles passam a fazer parte de rede de negócios e uma cadeia que conecta visitantes, empreendedores, fornecedores e comunidades.

É a partir dessa perspectiva que Gisele Abrahão, CEO da GVA – Global Vision Access e fundadora e CEO da Plataforma Impactos Positivos, defende uma relação mais ampla entre turismo e desenvolvimento.
A economia dos muitos Brasis
A diversidade brasileira representa uma vantagem difícil de reproduzir. Cada região combina paisagens, gastronomia, música, histórias, tradições e conhecimentos próprios. Para Abrahão, é justamente esse conjunto que pode sustentar modelos de negócio capazes de gerar renda sem exigir que os territórios abandonem suas características.
“Somos um país continental. Temos muitos ‘Brasis’ dentro do Brasil. Cada região possui histórias, culturas, sabores, paisagens e conhecimentos extraordinários”, afirma.
A lógica muda quando o destino deixa de ser apenas cenário e passa a participar economicamente da experiência.
Um visitante que consome de um produtor local, compra diretamente de um artesão ou contrata um pequeno empreendedor faz com que parte da renda gerada pela viagem permaneça naquela comunidade.
O turismo, nesse contexto, torna-se uma rede de negócios.
O valor econômico da identidade
Para Abrahão, uma das grandes oportunidades está em reconhecer como ativos aquilo que as comunidades já possuem.
Em vez de transformar o território para atender a uma imagem padronizada de destino turístico, a proposta é construir experiências em torno daquilo que o torna singular e essa mudança pode ter consequências econômicas diretas.
Um artesanato ganha mercado. Uma tradição gastronômica cria oportunidades. Uma manifestação cultural atrai visitantes. Um patrimônio histórico encontra nova utilização. Uma área natural preservada pode sustentar atividades relacionadas à visitação.
“Acredito que preservamos melhor aquilo que aprendemos a reconhecer como valor”, diz Abrahão.
O raciocínio aproxima preservação e geração de renda.
“Turismo de impacto também é memória. É pertencimento. É preservação.”
Empresas que descobrem uma nova cadeia de negócios
Uma das transformações mais interessantes dessa economia acontece entre empresas que não nasceram necessariamente dentro do turismo.
Tecnologia, acessibilidade, economia circular, alimentação, cultura e outras atividades podem oferecer soluções diretamente aplicáveis à experiência do visitante e à competitividade dos destinos.
A Plataforma Impactos Positivos reúne exemplos dessa aproximação.
A Biomob trabalha acessibilidade e inclusão por meio da tecnologia. Aplicada ao turismo, a proposta dialoga diretamente com a necessidade de tornar destinos, espaços e experiências acessíveis a mais pessoas.
A Rede Asta fortalece o saber artesanal de mulheres, transformando conhecimento e criatividade em geração de renda. Quando esse trabalho entra na cadeia turística e aproxima produtores de novos consumidores, o impacto econômico pode se multiplicar.
Já o Instituto Feirou atua no mapeamento, documentação e fortalecimento das feiras livres brasileiras por meio da tecnologia e do audiovisual.
Feiras carregam alimentos, sotaques, costumes, histórias e relações sociais. Aquilo que integra o cotidiano de uma cidade pode representar, para o visitante, uma das experiências mais autênticas daquele território.
Do turismo religioso ao mangue
Outros projetos presentes na Plataforma Impactos Positivos mantêm relação direta com o setor turístico.
O Caminhos do Peregrino, de Goiânia, trabalha o turismo religioso e cultural como instrumento de fortalecimento de comunidades e valorização de destinos de Goiás.
Em Natal, a Gamboa do Jaguaribe conecta memória indígena, mangue, cultura e turismo regenerativo, aproximando patrimônio natural, memória cultural e desenvolvimento.
O Visite Brasília busca conectar pessoas, empresas e experiências com o objetivo de fortalecer o turismo e a economia da capital federal.
Os projetos partem de realidades distintas, mas ajudam a responder a uma pergunta comum: quanto da riqueza criada pela presença de um visitante permanece no lugar visitado?
“Quando o turismo se conecta aos negócios de impacto, deixamos de pensar apenas em quantas pessoas visitam um destino e começamos a pensar em o que a presença dessas pessoas deixa naquele território”, afirma Abrahão.
Uma experiência movimenta muito mais do que o viajante vê
Quem viaja dificilmente percebe todas as relações econômicas existentes por trás de uma experiência.
Ao sentar-se em um restaurante, o consumidor pode movimentar não apenas o estabelecimento, mas também profissionais, produtores de alimentos, transportadores e fornecedores.
Quando compra artesanato, acessa outra cadeia. Se contrata uma experiência cultural, outra. Quando visita uma área natural estruturada para receber turistas de maneira responsável, a atividade pode ajudar a gerar renda em torno de sua conservação.
É essa multiplicação de relações que explica por que negócios aparentemente distantes da indústria de viagens podem encontrar oportunidades dentro do turismo.
Para Abrahão, existe ainda uma dimensão humana dessa atividade que também produz valor.
“Essas trocas nos transformam”, afirma, ao falar sobre o encontro entre visitantes e comunidades.
Conhecer a gastronomia de um lugar, ouvir histórias, compreender costumes e estabelecer contato com quem vive no destino cria experiências que dificilmente podem ser reproduzidas em escala industrial.
Para os negócios, essa autenticidade também pode representar diferenciação.
Impactos Positivos aproxima empresas e soluções
Criada por Abrahão, a Plataforma Impactos Positivos conecta empresas, pessoas e organizações de áreas como economia, desenvolvimento social, tecnologia, ciência, educação, saúde, sustentabilidade, meio ambiente e inovação.
O turismo aparece nesse ecossistema tanto por meio de negócios diretamente relacionados ao setor quanto por soluções que podem ser incorporadas por hotéis, pousadas, restaurantes, operadores, aeroportos, eventos, parques e destinos.
“Empreendedores estão percebendo que turismo, sustentabilidade, inclusão, cultura e desenvolvimento territorial não precisam caminhar separadamente”, afirma Abrahão.
Uma vez por ano, parte desse ecossistema se encontra presencialmente no Encontro Impactos Positivos.
Em 2026, o evento chega à sexta edição com o tema “Inteligência Artificial para Acelerar o Impacto Positivo”. A programação reúne painéis, palestras, mentorias, conexões e momentos de networking.
O encontro também recebe o Prêmio Impactos Positivos. Segundo informações da organização, mais de 150 empresas se inscreveram na edição de 2026 e participam de um processo que combina votação popular, avaliação técnica e análise de júri.
O evento será realizado em 24 de setembro, das 13h às 18h, no Auditório FIAP, na Avenida Paulista, em São Paulo.
Viajar e deixar prosperidade
O impacto de uma viagem pode ser medido pelo que o visitante experimenta, mas também pelo que permanece depois de sua partida.
Receita para o pequeno empreendedor. Mercado para o produtor. Trabalho para quem vive no destino. Valor econômico para conhecimentos e manifestações culturais que pertencem àquela comunidade.
Para Abrahão, o Brasil possui uma oportunidade particular porque muitos dos elementos capazes de diferenciá-lo internacionalmente estão justamente em sua natureza, cultura, gastronomia, comunidades e saberes tradicionais.
“Como podemos gerar prosperidade protegendo aquilo que nos torna únicos?”, questiona.
Talvez essa seja uma das perguntas econômicas mais relevantes para o turismo brasileiro.
Porque o sucesso de um destino não precisa ser medido somente pela quantidade de pessoas que chegam.
Pode ser medido também pela quantidade de oportunidades que permanecem depois que elas partem.




