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Sustenta Carnaval reaproveita materiais da festa no Rio, gera renda, mitiga emissões de CO₂ e cria uma rede que une cultura, meio ambiente e transformação social

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A história do Sustenta Carnaval começa muito antes de o projeto ganhar nome. Nasce na trajetória de Mariana Pinho, criada em uma família de mulheres artesãs cariocas que migraram para Brasília, onde ela nasceu. “Fui criada com investimento na minha formação como artesã e artista, incentivada a me expressar através do que eu vestia e do que eu fazia”, afirma Mariana Pinho.

Sustenta Carnaval reaproveita materiais da festa no Rio, gera renda, mitiga emissões de CO₂ e cria uma rede que une cultura, meio ambiente e transformação social
Mariana Pinho, fundadora do Sustenta Carnaval, transforma 66 toneladas de fantasias descartadas em economia circular e impacto ambiental positivo

A semente do reaproveitamento veio cedo, na prática de misturar materiais e identificar potencial em insumos diversos. Ao longo da carreira como dançarina, figurinista, coreógrafa, diretora artística e ponte cultural entre Brasil, Reino Unido e Europa, Mariana passou a observar o contraste entre figurinos de uso único e produções pensadas para durar.

Depois de trabalhar na Mocidade, em 2002, quando já recolhia restos da produção, ela voltou ao Rio em 2020 e se deparou com um cenário alarmante. “Percebi que, por questões de logística urbana, muitas vezes as escolas não conseguem transportar todas as fantasias, que acabam sendo levadas pela Comlurb para os aterros sanitários”, relata.

Embora as escolas reaproveitem mais de 90% dos insumos internamente, ainda são milhares de peças descartadas. Foi assim que, em 2020, Mariana começou a recolher “uma mala por noite”. Durante a pandemia, estruturou a pesquisa ao lado de Eliane Góes, então consultora e diretora artística do projeto, conectando impacto social, educação e pauta ambiental.

Mariana Pinho, fundadora do Sustenta Carnaval, transforma 66 toneladas de fantasias descartadas em economia circular e impacto ambiental positivo

Sustentabilidade na prática e reinserção na economia circular

Desde o início, o Sustenta Carnaval atua na etapa pós-consumo. “Entendemos que, por serem majoritariamente sintéticos, esses insumos têm grande potencial de reutilização”, explica Mariana. O foco não é prestar consultoria às escolas, mas reinserir o material já produzido na engrenagem circular.

Os resultados aparecem em diferentes frentes. No Baile da Vogue, sete looks foram criados a partir de insumos do projeto, por meio do trabalho manual de estilistas que apostam no upcycling. Escolas utilizam materiais para bandeirinhas, universidades de moda desenvolvem editoriais e municípios retomam seus carnavais com apoio do acervo.

O projeto também cria produtos em parceria com o Instituto Mulheres do Sul Global, envolvendo mulheres brasileiras e migrantes de Niterói, ampliando o alcance social da iniciativa.

Impacto ambiental com números concretos

O diferencial do Sustenta Carnaval está na mensuração do impacto. Segundo Mariana, “cada quilo de fantasia, do berço à decomposição, tem um impacto de 47,2 quilos de CO₂ equivalente”. Ela compara esse volume a quase mil quilômetros rodados ou ao impacto diário de três pessoas.

Até agora, 66 toneladas de materiais foram desviadas do descarte. Desse total, 20 toneladas já retornaram à economia circular por meio de doação, venda, aluguel, criação de novos produtos e exportação.

“A cada reutilização, a mitigação é ampliada”, ressalta a fundadora. Isso porque muitos insumos sintéticos podem levar até 500 anos para se decompor. “Pensamos que os nossos bisnetos vão nascer e a fantasia que usamos ainda estará em decomposição”, alerta.

A coleta é realizada em harmonia com a Comlurb, respeitando a logística urbana após os desfiles.

Mariana Pinho, fundadora do Sustenta Carnaval, transforma 66 toneladas de fantasias descartadas em economia circular e impacto ambiental positivo

Estrutura, parcerias e geração de renda

Hoje, o projeto mantém acordo com a Liesa/Rio Carnaval e cooperação com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima. Apenas na ação de coleta deste ano, a organização empregará mais de 50 pessoas.

Ao longo do ano, o número cresce com as ações de triagem, produção de eventos e atendimento a clientes. O trabalho envolve moradores do território da Pequena África, mulheres monoparentais e mulheres brasileiras e migrantes, em parceria com o Instituto Mulheres do Sul Global.

Há ainda articulações com RioTur, SECEC, Teatro Municipal e FICCCERJ. No Reino Unido, o Sustenta Carnaval está registrado como Community Interest Company, com projetos apoiados pelo Arts Council England e participação no grupo 2 do Power Up London, iniciativa da Big Issue Invest com apoio da Prefeitura de Londres e do governo britânico.

Mercado, preços e novos caminhos criativos

O modelo de venda é direto e acessível. O preço é de 50 reais o quilo no varejo e 30 reais o quilo no atacado, com mínimo de 50 quilos. A nova sede funciona na Rua Pedro Ernesto, 67, em frente ao Muhcab, no Rio.

Atualmente, as vendas ocorrem pelo Instagram, nos perfis SustentaCarnaval.br, no Brasil, e SustentaCarnaval, no Reino Unido. Não há loja on-line.

O acervo inclui peças elaboradas reinterpretadas por designers parceiros. Lina Miguel assina as “cabeças encantadas”; Lohanne Tavares desenvolve peças em upcycling, como hotpants e biquínis; e Iza Valente cria estandartes. A Ala das Baianas raramente integra o acervo, já que as escolas recolhem essas fantasias prioritariamente.

Além das vendas, o projeto realiza doações para movimentos sociais, escolas, asilos e grupos de teatro, e prepara vivências educativas nas áreas cultural, turística e educacional, com inserção em leis de incentivo e editais.

Para Mariana Pinho, o significado vai além da estética. “A fantasia não termina quando o Carnaval termina. Ela se torna ponto inicial de diferentes entregas”, afirma. Em tempos de crise climática, a mensagem é clara: cada organização e cada pessoa pode rever o consumo e criar medidas ecoeficientes. O Carnaval, símbolo máximo da cultura brasileira, também pode ser exemplo de responsabilidade ambiental e transformação social.

Reportagem: Mary de Aquino
Fotos: Divulgação
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