O refúgio na natureza que virou propósito, essa é a história do Ta’Xmun Olive Grove em Żebbuġ, que nasce de uma busca pessoal. Charles Bugeja conta que o espaço surgiu como um refúgio silencioso, um lugar para estar consigo mesmo, observando a natureza, o pássaros e os insetos, longe de distrações e excessos. A terra foi herdada do pai há cerca de 20 anos e, à época, não tinha valor produtivo. “Quando eu era jovem, não era fã da agricultura”, relembra Bugeja. Com o tempo, o vínculo com o local se transformou em cuidado, constância e propósito.

O projeto também carrega uma dimensão afetiva profunda. O produtor relata que o período do Natal nunca mais foi o mesmo após a perda da mãe, cuja memória ele sente presente no olival. Esse elo emocional moldou a relação com a terra e deu sentido ao trabalho diário.
O que define um azeite extravirgem de excelência

Segundo Charles Bugeja, existem critérios técnicos rigorosos para que um azeite seja considerado extravirgem. O primeiro é a acidez, que não pode ultrapassar 0,4%. “Quanto menor a acidez, mais premium será o azeite”, afirma o fundador do Ta’Xmun Olive Grove. Outro fator essencial é o controle do oxigênio, um dos maiores inimigos do produto, capaz de comprometer aroma, sabor e propriedades nutricionais.
Bugeja também destaca o valor nutricional do azeite de alta qualidade. Ele explica que o produto é rico em ômega-3 e possui propriedades anti-inflamatórias comprovadas por estudos científicos recentes. “Pesquisas conduzidas por cientistas e médicos americanos demonstraram que o azeite extravirgem premium pode ajudar no combate a células cancerígenas, justamente por reduzir processos inflamatórios”, relata, deixando claro que não fala como médico, mas como alguém atento à ciência.
Saúde, pele e aproveitamento total da oliva

O produtor ressalta que os benefícios do azeite vão além da alimentação. O consumo regular contribui para a redução do colesterol, pode ajudar no alívio de inflamações articulares e traz ganhos visíveis para a pele. Ele lembra que, no passado, o azeite era utilizado como tratamento medicinal e cosmético, inclusive em casos de infecções cutâneas.
No Ta’Xmun Olive Grove, nada é desperdiçado. Após a centrifugação, os resíduos da oliva são encaminhados para reaproveitamento industrial e cosmético. “Esses subprodutos podem ser usados em compostagem, cuidados com a pele, shampoos e outros produtos. Nada se perde”, afirma Bugeja.

Agricultura sem pesticidas e os desafios do clima
O olival abriga cerca de 400 árvores, todas cuidadas sem o uso de pesticidas químicos. Essa escolha traz desafios adicionais, especialmente diante das mudanças climáticas. O produtor relata que, recentemente, precisou podar drasticamente 12 árvores afetadas por uma doença, o que resultou em perda total de produção naquele ciclo. Ainda assim, ele manteve o cuidado diário, a fertilização e o acompanhamento, preparando-as para a próxima safra.
“Mesmo sem produzir, essas árvores exigem mais atenção do que as outras”, diz Bugeja, explicando que opta sempre por soluções ecológicas, mesmo quando mais caras.

O controle do oxigênio e o cuidado após a colheita
Após a produção, o azeite passa por um processo de decantação em tanques de aço inoxidável. O objetivo é eliminar sedimentos que podem gerar bactérias indesejáveis. Em seguida, o nitrogênio preenche o espaço, substitui o oxigênio e protege o azeite da oxidação.
Essa preocupação se reflete também no envase. O Ta’Xmun Olive Grove não trabalha com garrafas grandes. “Preferimos frascos menores para reduzir o contato do azeite com o ar depois de aberto”, explica o fundador, mesmo reconhecendo que isso aumenta os custos de produção.

Preço, trabalho e a verdade sobre o azeite barato
Charles Bugeja é direto ao falar sobre preços. “Você não pode comprar um litro de azeite verdadeiro por 20 euros. Isso é mentira”, afirma. Para produzir um litro, são necessários cerca de 10 quilos de azeitonas, além de mão de obra especializada, análise de solo, fertilizantes adequados e cuidados constantes.
O azeite servido nas degustações, segundo ele, reflete um ano inteiro de trabalho. “Não é esforço físico pesado, é dedicação diária às árvores”, diz, reforçando que o controle do solo é um dos fatores determinantes da qualidade final.
Do refúgio pessoal à experiência turística
O projeto, que começou como um espaço de descanso pessoal, ganhou uma nova dimensão quando o filho de Bugeja manifestou o sonho de se tornar piloto. Para apoiá-lo, o produtor passou a organizar degustações, eventos corporativos, celebrações privadas e experiências sensoriais ligadas ao azeite e ao vinho.
Hoje, o Ta’Xmun Olive Grove recebe visitantes de diversas partes do mundo. “Tenho muito orgulho de dizer que já recebi muitos grupos brasileiros aqui”, afirma. Para ele, compartilhar a história e a cultura do azeite maltês é também uma forma de preservar uma herança que remonta a mais de dois mil anos.
Poda, polinização e equilíbrio do ecossistema
O cuidado com as oliveiras envolve conhecimento técnico e observação da natureza. Bugeja explica que é preciso podar as árvores anualmente, de forma leve e estratégica, para permitir que a luz solar alcance o interior da copa. “A fruta só nasce onde o sol consegue penetrar”, explica.
Ele também detalha o papel das variedades polinizadoras. Algumas oliveiras são autossuficientes, mas a maioria depende da proximidade de árvores específicas para produzir. Cada variedade mantém seu DNA, sabor e características próprias, sem mistura genética.
Para manter o ecossistema saudável, o produtor cultiva flores e protege a fauna local. Camaleões, pássaros e insetos benéficos fazem parte do equilíbrio natural do olival. “Eles são meus parceiros”, diz, reforçando a decisão de não usar pesticidas.
Frescor, consumo e a importância da data de colheita
Por fim, Charles Bugeja alerta para um detalhe pouco conhecido pelos consumidores: o prazo ideal de consumo do azeite. “Deve-se consumi-lo em até um ano a partir da colheita, e não da data de envase.”, explica. Um azeite pode parecer novo no rótulo, mas já ter perdido frescor e propriedades.
Para ilustrar essa diferença, o produtor costuma convidar os visitantes a comparar seu azeite com produtos de supermercado, incentivando cada um a formar sua própria percepção.




