O afroturismo brasileiro se consolida como uma travessia sensorial e simbólica que ultrapassa a lógica do turismo tradicional. Mais do que observar territórios, o visitante é atravessado por memórias vivas, sabores, ritmos e espiritualidades que estruturam a identidade do país.

Para Hubber Clemente, o movimento amplia o próprio sentido da viagem. “O afroturismo tem o protagonismo das experiências ligadas à história e à cultura negra, mas quando pensamos o viajante contemporâneo, agregamos gastronomia, música, arte, religiosidade e empreendedorismo com protagonismo negro para tornar essas experiências únicas e inesquecíveis”, afirma Clemente, presidente da ABRAFRO.
Brasil no mapa internacional do afroturismo
A presença do afroturismo na agenda internacional avança a partir de uma engrenagem institucional que articula dados, políticas e promoção estratégica. Segundo Tânia Neres, coordenadora de Afroturismo e Povos Indígenas da Embratur, não se trata de uma única rota nacional estruturada, mas de um conjunto de experiências mapeadas e qualificadas para o mercado global.
Ela explica que esse processo envolve levantamentos realizados com a UNESCO e o Ministério do Turismo, além de iniciativas com o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe, que identificam experiências com potencial de internacionalização.
Entre as ações em curso, destacam-se o Feel Brasil, desenvolvido com o Sebrae, que reúne produtos prontos para o mercado internacional, como o Caminho dos Orixás, em Salvador, apresentado na feira Top Resa, em Paris.
Tânia reforça que a estratégia brasileira combina inteligência de dados, conectividade aérea e curadoria de experiências, levando o afroturismo a feiras internacionais e press trips. “Tomamos decisões sobre quais produtos apresentar a partir de dados e mercado, conectando experiências afro a estratégias de destino do Brasil no exterior”, afirma a coordenadora da Embratur.
Nesse ecossistema, plataformas como Desbrava ampliam o encontro entre pequenos empreendedores e grandes operadores, enquanto o Brasil Travel Specialist capacita agentes internacionais para atuarem com o segmento. A parceria com a Black Travel Alliance também fortalece a presença do Brasil no mercado global de viajantes negros. Já o Acordo de Cooperação Técnica entre a Embratur e a ABRAFRO marca um novo ciclo de integração institucional para o segundo semestre de 2026.

Territórios que guardam memória e pertencimento
Para além das grandes vitrines internacionais, o afroturismo se revela no cotidiano das cidades brasileiras. Clemente propõe um gesto de retorno ao próprio território como ponto de partida. Caminhadas negras em centros urbanos resgatam histórias invisibilizadas e reconfiguram o olhar sobre o espaço público.
Em São Paulo, ele destaca o Museu Afro Brasil como referência fundamental. “É um dos melhores acervos do mundo sobre história e cultura negra”, afirma o presidente da ABRAFRO. Ele sublinha ainda que o afroturismo nasce do reconhecimento do que já existe, mas foi silenciado.
Literatura como extensão da viagem
A experiência do afroturismo não termina no deslocamento físico. Ela se prolonga na leitura, na escrita e na memória. Clemente cita obras como Afroturismo, afeto, afronta e futuro, de Guilherme Soares Dias, e EscreVIVER – Cartas de uma viajante negra ao redor do mundo” de Rebecca Aletheia, fundadora da Bitonga Travel, como portas de entrada para compreender o movimento.
Tânia Neres amplia esse repertório ao lembrar que o afroturismo é atravessado por uma longa tradição intelectual negra. Ela cita autores como Carolina Maria de Jesus, Ana Maria Gonçalves e Itamar Vieira Junior, destacando que “o afroturismo bebe da fonte dos intelectuais negros”.
Entre as obras, aparecem também O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, e Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, além de escritos de Beatriz Nascimento.

Estruturas, dados e a arquitetura do reconhecimento
O avanço do afroturismo brasileiro também se sustenta em uma arquitetura institucional em expansão. Tânia Neres explica que mapeamentos contínuos e estratégias de inteligência de mercado orientam o setor e conectam a oferta à demanda internacional. Fam tours, press trips e plataformas digitais integram experiências afro a circuitos globais de turismo. Já as universidades e centros de pesquisa ampliam o debate acadêmico sobre o tema.
Nesse contexto, o turismo deixa de ser apenas deslocamento e se transforma em uma experiência de reconhecimento coletivo. Ao conectar território, memória e economia criativa, o afroturismo reposiciona o Brasil como um país que não apenas recebe visitantes, mas narra a si mesmo a partir da centralidade da cultura negra.




