O turismo mudou. E talvez nenhuma transformação seja tão profunda — e ainda tão subestimada — quanto a ascensão do público sênior. Foi justamente essa provocação que o jornalista, palestrante e consultor Ariel Figueroa levou ao centro de sua palestra sobre Turismo 60+, realizada na Expo Turismo Paraná 2026, ao defender que o setor precisa abandonar conceitos ultrapassados e compreender uma nova geração de viajantes maduros: ativa, exigente, experiente e movida por propósito.

Mais do que apresentar dados, Figueroa propôs uma verdadeira desconstrução mental sobre o envelhecimento e o comportamento do consumidor acima dos 60 anos. Segundo ele, o mercado ainda insiste em enxergar esse público a partir de referências antigas, incompatíveis com a realidade atual.
Durante décadas, explicou, quem chegava aos 60 anos era empurrado para uma aposentadoria passiva. “Nos anos 1980, o plano para essa pessoa era ficar no sofá vendo televisão”, lembrou. Em meio ao aumento dos casos de depressão e isolamento, surgiram expressões como “melhor idade” e “terceira idade”, tentativas sociais de suavizar a chegada do envelhecimento. Para o palestrante, porém, esses termos envelheceram junto com os preconceitos que carregavam.
Hoje, ele prefere o conceito de “turismo sênior” ou “turismo sênio”, justamente por evitar rótulos numéricos e classificações limitantes. “Não é mais um grupo homogêneo. É um nicho cheio de subnichos”, afirmou.
O Brasil deixou de ser um país jovem
Um dos pontos centrais da palestra foi a mudança demográfica brasileira. Ariel Figueroa destacou que um em cada cinco brasileiros já tem mais de 60 anos — realidade que altera completamente o planejamento do setor turístico.
Na visão dele, o Brasil vive hoje o mesmo processo que países europeus e o Japão enfrentaram décadas atrás: aumento da longevidade, redução da natalidade e envelhecimento acelerado da população.“O Brasil não é mais um país jovem. É um país maduro”, resumiu.
A mudança, segundo ele, também impacta diretamente o comportamento de consumo. O público sênior atual possui mais saúde, mais autonomia, mais disposição física e, em muitos casos, maior poder aquisitivo do que gerações anteriores. Além disso, a relação com a idade mudou profundamente.
Figueroa citou uma pesquisa internacional segundo a qual pessoas acima dos 60 anos acreditam que o envelhecimento começa, de fato, apenas aos 74 anos. O dado revela uma ruptura simbólica importante: os 60 deixaram de representar velhice.
Academias, trilhas, cicloturismo, expedições e viagens de aventura já fazem parte da rotina desse público. “Aquela imagem da pessoa de bengala, cansada e limitada ficou no passado”, observou.
Um turista mais exigente e movido por propósito
Se antes o mercado vendia pacotes padronizados ao público maduro, hoje o desafio é outro: personalizar experiências.
Para Ariel Figueroa, o viajante sênior contemporâneo sabe exatamente o que quer e, também, o que não aceita mais. É alguém que já viveu experiências tradicionais de turismo de massa e agora procura significado.“A viagem precisa ter propósito”, enfatizou.
Esse propósito pode estar em diferentes dimensões: cultural, gastronômica, espiritual, afetiva, ambiental ou de desenvolvimento humano. O importante é que a experiência deixe marcas além das fotografias.
Segundo o palestrante, esse consumidor valoriza qualidade em toda a jornada: atendimento, conforto, ritmo da viagem, escuta ativa, acolhimento e experiências autênticas.
Ao contrário do turista mais jovem, frequentemente motivado apenas por descanso e lazer imediato, o público sênior busca profundidade. Quer aprender, viver, compreender e sentir o destino.

O crescimento das viagens lentas e profundas
Entre as tendências apontadas por Figueroa está o avanço das chamadas “viagens lentas e profundas”, modelo oposto ao turismo acelerado que marcou décadas anteriores.
Ele criticou os roteiros excessivamente corridos, em que o viajante visita muitos lugares sem realmente vivenciar nenhum deles. “Europa em 15 dias e 21 países não faz mais sentido”, comentou em tom bem-humorado.
O novo comportamento privilegia permanências maiores em um único destino, com experiências mais imersivas e conexão genuína com a cultura local.
Nesse contexto, Curitiba apareceu como exemplo simbólico: mais do que conhecer pontos turísticos rapidamente, o viajante deseja experimentar a cidade com calma, frequentar o Largo da Ordem, entender a gastronomia local, aprender receitas típicas e mergulhar na identidade do lugar.
Segundo Figueroa, o turismo gastronômico ganha ainda mais força quando inclui interação e aprendizado. “Tem gente que não quer apenas comer a carne de onça, mas aprender a fazer”, ponderou.
Turismo de memória, afeto e reencontros
Outro conceito destacado foi o das “viagens de saudade” — deslocamentos motivados pela memória afetiva.
O próprio Ariel compartilhou sua experiência pessoal retornando todos os anos a Montevidéu, cidade onde nasceu. Com o tempo, percebeu que revisitava sempre os mesmos lugares: a escola, antigas ruas, restaurantes e espaços carregados de lembranças.
Esse comportamento, segundo ele, abre uma nova frente para o mercado turístico: vender reencontros emocionais.“Revisitar cidades da infância, caminhar por bairros antigos, reencontrar sabores e reconstruir memórias pode ser tão poderoso quanto conhecer destinos inéditos”, presumiu.
Viagens entre avós e netos: tendência crescente
Entre os movimentos mais promissores do turismo sênior, salientou as viagens intergeracionais, especialmente entre avós e netos.
Segundo Figueroa, esse formato cresce rapidamente na Europa e encontra terreno fértil no Brasil, especialmente diante da rotina acelerada das famílias contemporâneas.
Para ele, a troca entre gerações é extremamente rica: os netos absorvem experiência, histórias e conhecimento; os avós se revitalizam com a energia dos mais jovens.Além disso, a viagem cria tempo de convivência — algo cada vez mais raro no cotidiano moderno.
O erro de ignorar o Facebook
Na parte final da palestra, Figueroa abordou comunicação digital e fez um alerta ao trade turístico: focar exclusivamente no Instagram pode afastar justamente o público que mais consome viagens.
Ele argumenta que o Facebook continua extremamente relevante para pessoas acima dos 60 anos por razões simples: letras maiores, facilidade de leitura, espaço para textos mais longos e forte senso de comunidade por meio dos grupos.
“O Instagram foi pensado para uma geração intuitiva no celular. O Facebook conversa melhor com quem gosta de ler, pesquisar e aprofundar informações”, justificou.
A recomendação foi clara: estar presente em todas as plataformas, compreendendo as particularidades de cada público.
Um mercado gigantesco e ainda pouco compreendido
Ao longo da palestra, Ariel Figueroa insistiu em uma ideia central: o turismo sênior não deve ser tratado como um segmento limitado, mas como um dos grandes motores do turismo contemporâneo.
Trata-se de um público fiel, recorrente e altamente recomendador. Segundo ele, um cliente sênior satisfeito pode realizar até quatro viagens por ano e ainda indicar a agência ou operadora para amigos e familiares.
Mas, para isso, é preciso abandonar estereótipos.“Não venda para eles como se fossem idosos. Venda como turistas”, advertiu.
A frase sintetiza a essência de sua apresentação: o viajante sênior de hoje não quer ser tratado como alguém em declínio. Quer viver experiências relevantes, continuar aprendendo, descobrir novos destinos e construir memórias significativas.
E o mercado que entender isso primeiro certamente estará um passo à frente no turismo dos próximos anos.




